Archive for setembro, 2009
NOVO RUMO NA TRADUÇÃO DA BÍBLIA PARA A LÍNGUA PARIMITÉRI

Equipe trabalhando na tradução
Há alguns anos o trabalho de tradução de porções da Bíblia levava muito tempo para ser concluído. Muitos tradutores gastavam suas vidas nessa tarefa. Hoje, a possibilidade desse trabalho ser concluído com mais rapidez tem se tornado uma realidade. Um exemplo disso é a iniciativa da equipe do posto Parimi-ú, que trabalha com o povo ianomâmi no Alto Uraricoera, em se unir para acelerar o trabalho. Com as novas ferramentas disponíveis e o trabalho de mais membros da equipe do posto, a possibilidade de diminuir o tempo de tradução e de ver a Bíblia toda traduzida tem motivado esses missionários.
Até hoje a tradução para a língua parimitéri é feita por dois missionários. Patrícia Rocha trabalha em Boa Vista concluindo o livro de Apocalipse. Estevão Anderson, residente no posto, revisa os livros e porções que já foram traduzidos. A missionária Betânia Rodrigues apóia na aldeia no processo de retrotradução, ou seja, a tradução do texto da língua de destino novamente para o português, com o auxílio de um indígena, a fim de verificar sua compreensão, especialmente das expressões utilizadas.
O novo modelo de trabalho vai envolver todos os membros da equipe que já dominam o idioma ianomâmi parimitéri. Daniel Brown e Nara Taets vão auxiliar na verificação do que já foi traduzido e participar diretamente das etapas de trabalho das próximas traduções. Betânia vai se envolver ainda mais no trabalho de retrotradução com consultores.
Tempo e disciplina

Daniel Brown aponta a pesada rotina de manutenção do posto como um desafio a ser superado para a consolidação desse novo modelo. “Eu já pensava em ajudar, mas com tantas atividades na aldeia, não encontrava tempo para me dedicar exclusivamente a isso”, explica. Daniel já está aprendendo a utilizar o programa de tradução e a fazer a retrotradução.
Nara Taets destaca a disciplina para conciliar a família com o trabalho de tradução e outras atividades no posto como um alvo para o bom andamento do projeto. “Foi Deus quem me deu sabedoria para eu saber o que sei da língua ianomâmi. Ele me ajudou a aprender para que, por meio da tradução da Bíblia, o povo ianomâmi tenha o privilégio de ouvir Deus falar através da Bíblia em sua própria língua,” explica Nara. (Foto: Betânia e Nara)
A família de Nara se prepara para iniciar uma nova fase de seu ministério em Boa Vista, a partir do final de 2009, para acompanhar de perto o estudo dos filhos. O trabalho de tradução será uma das formas de Elias e Nara continuarem diretamente envolvidos com o povo de Parimi-ú, apesar da distância.
Desafios da Tradução
“Há quem pense que para traduzir a Bíblia é preciso simplesmente conhecer a língua para a qual o texto será traduzido. No entanto, é importante entendermos que a realização desse trabalho passa por várias etapas”, frisa Patrícia Rocha.
De acordo com Patrícia, na primeira fase faz-se o levantamento dos termos chave e a exegese do livro, só então se começa a tradução, utilizando para isso diferentes informantes, que farão o teste de compreensão. No caso de Patrícia, Betânia faz a retrotradução, a tradução do texto ianomâmi para o português. Depois o material é enviado à consultora externa – uma linguista mais experiente - que verificará todo o trabalho feito até aquele momento. Se houver mudanças necessárias, ela manda de volta e a tradutora efetua as correções.

Batismos e conversões
Sede pela palavra
Segundo Patrícia, há um grande clamor dos crentes parimitéris pelos trechos e livros já traduzidos. “Eles querem ter em mãos para estudar e ensinar”. Nos últimos três anos, 56 indígenas foram batizados em Parimi-ú. Trata-se de um movimento sem precedentes na história desse povo. Nesse contexto, a Bíblia na língua do povo de Parimi-ú torna-se um imperativo para a MEVA que há mais de 50 anos mantém equipes na região do Alto Uraricoera.
Celestino Padilha, chamado para edificar

A igreja da aldeia macuxi de Manoá, a 80 quilômetros de Boa Vista, vai receber nos próximos meses um novo espaço para reuniões. Em meio aos materiais de construção, à poeira e ao calor equatorial, a vida simples de um homem de 70 anos, o ‘Seu’ Celestino, se torna impressionante. O testemunho desse homem reflete o amor de Deus pelo povo macuxi, as bênçãos reservadas àqueles que lhe são fiéis e o sentimento de responsabilidade diante da obra missionária. Sem sustento de igrejas, vivendo apenas com sua aposentadoria, ’Seu’ Celestino tem feito a diferença na vida de seu povo, em várias aldeias.
Celestino Brasil Padilha, nasceu aos 19 de julho de 1938 no interior de Roraima, em uma pequena vila localizada na estrada que liga Boa Vista à Venezuela. Cresceu sem a presença dos pais, às margens do rio Amajari, trabalhando desde pequeno em uma fazenda. Aos 14 anos começou a trabalhar no garimpo, onde permaneceu até o ano de 1960. Conheceu Justina da Costa, da aldeia de Maracanã. Casaram-se e tiveram cinco filhos. Ela faleceu em 2003, vítima de diabetes.
Celestino converteu-se em 1960 por meio do trabalho realizado pela Rádio Transmundial. Foi discipulado pelo missionário João Batista da MEVA e firmou-se na fé. Morou na aldeia de Maracanã por 12 anos. Em 1973, mudou-se para a cidade de Boa Vista, onde trabalhou exercendo os talentos de pedreiro, carpinteiro e pintor; sempre junto a igrejas que necessitavam de reformas ou até mesmo de construção. Ainda morando na cidade participou da construção das igrejas das aldeias macuxis de Napoleão, Macedônia e Maracanã. Clique e veja no mapa
Construção em Manoá, um ministério de amor
Agora em Manoá, Celestino assumiu o compromisso de tocar a obra da nova igreja, desde capinar a área até o acabamento do prédio. Apesar da idade e do cansaço, ele não perde um culto e aproveita cada oportunidade nas reuniões para compartilhar, exortar e desafiar o povo da aldeia.O trabalho da MEVA na comunidade, que fica a 2 horas de caminhonete da cidade, é feito por meio de visitas regulares para instrução e edificação da igreja local e de seus líderes. A igreja em Manoá conta com a dedicação do pastor Arnaldo Simplício, que é casado com Oneida e têm nove filhos.
Uma das grandes dificuldades desta e de outras igrejas é a localização. Como as estradas ainda são de terra, o contato com outras igrejas e a troca de experiências são mais difíceis, provocando um desânimo grande nos cristãos. Os jovens ficam desmotivados a prosseguir sua vida com Deus, as famílias ficam enfraquecidas, e muitas vezes são iludidas com as tentações da vida da cidade.
Diante dessas circunstâncias, Seu Celestino tem dedicado sua vida a incentivar essas igrejas do interior. Ele não quer deixar o povo se acomodar, e tem viajado para exortar os irmãos a continuarem a vida cristã. Usando suas habilidades no trabalho de construção, tem dedicado seu tempo na construção de novos espaços físicos para essas igrejas mais novas. Em sua opinião, “esta é uma das maneiras de animar e ensinar o povo a dar a Deus o que eles têm de melhor!”, afirma. Para ele um local novo para as reuniões pode também motivá-los a ter mais constância nos cultos, obtendo assim um maior crescimento espiritual.
‘Fazendo tendas’ com a aposentadoria
Celestino não tem sustento financeiro especial pelo que faz. Hoje ele vive com sua aposentadoria. Com esse dinheiro compra a sua comida, paga as passagens de ônibus para as aldeias e compra remédios. Ele até vendeu alguns objetos para levantar mais dinheiro para as viagens. A preocupação de Seu Celestino com o povo é tão grande, que ele faz questão de levar até a comida que vai consumir no período de permanência na aldeia. Enquanto realizam a construção em Manoá, as crianças e jovens ajudam na obra, enquanto as mulheres cozinham as refeições. O prato do último sábado foi um saboroso tatu.
Bênçãos que atravessam gerações
Dentre seus filhos, um é missionário-mecânico da missão Asas de Socorro – Cleo Brasil que é casado com Raquel e tem dois filhos: Suzana e Felipe. Seu Celestino se considera um homem tranqüilo, que vive em paz: “Deus me protegeu, e também aos meus filhos, que são cristãos, cresceram, e se tornaram bem ajustados e firmes na Palavra de Deus!”
Durante a construção da igreja em Maracanã, sua filha Leônia faleceu aos 42 anos, vítima de diabetes, deixando um casal de filhos. Mesmo assim, Celestino continuou a trabalhar na construção e, durante o culto realizado no Natal de 2008, já com a igreja funcionando, deu o seu testemunho emocionando a todos os presentes. Para que aquele evento tão importante acontecesse, ele ajudou os irmãos que cozinhavam carregando panelas, servindo refeições e organizando as acomodações dentro da igreja durante os cultos.
O que o leva a realizar essas coisas? A resposta desse homem ainda vigoroso e decidido é uma só: “Amor ao ministério, amor a Deus!”
A atuação da MEVA entre os povos macuxi e uapixana no lavrado
Desde antes do início da Meva em 1941, os pioneiros da missão se dedicaram à evangelização dos povos indígenas na região norte do Brasil. Um dos primeiros alvos era alcançar os indígenas macuxis que viviam espalhados nos cerrados da região central e norte do antigo Território do Rio Branco. As estradas eram rústicas e muitas viagens foram feitas de avião, caminhonetes, bicicletas e até a cavalo!
Diversos missionários contribuíram com seus trabalhos pioneiros, em equipes formadas por pessoas preparadas para pregar o evangelho e também profissionais da área de saúde, que se dedicavam a atender as urgências desse povo que vivia tão isolado. Existia um trabalho de rádio amador na cidade que avisava quando as equipes da MEVA iriam chegar a determinada aldeia e a hora em que seriam feitos os atendimentos clínicos. Através desse ministério, muitas igrejas foram estabelecidas e, por muitos anos, contaram com a ajuda de famílias missionárias que passaram a viver nelas, visando à edificação dos novos convertidos.
Hoje, a atuação da MEVA nessas aldeias é feita por meio de viagens periódicas, uma nova estratégia para que os líderes indígenas assumam por completo os trabalhos nas suas igrejas. Aos missionários cabe o ensino, que é feito de acordo com as necessidades de cada igreja, e também levar a motivação para que eles continuem a caminhada com Cristo.
Foto 1: Equipe médico evangelística na década de 60. À direita João Batista: o pioneiro fundou várias igrejas e discipulou o Seu Celestino.
Foto 2: Hoje o ministério entre essa etnia é feito por meio de viagens. Nem sempre tão simples.
Encontros para edificação e instrução
Em novembro do ano passado, conseguimos tornar realidade o que, até então, era apenas um projeto no nosso coração: o I Encontro de Líderes das Igrejas Evangélicas Uai-uais. Foram três dias onde a comunhão, a oração, o estudo da Palavra de Deus e as brincadeiras marcaram profundamente a vida de todos que participaram. Ao avaliarmos os resultados que, sem dúvida, superaram as nossas expectativas, decidimos realizá-lo anualmente, fazendo o mesmo para as lideranças das igrejas macuxis e uapixanas. Assim, no período de 5 a 9 de novembro, será realizado o segundo encontro com os líderes das igrejas evangélicas uai-uais, e, de 12 a 16 do mesmo mês, o primeiro encontro com os líderes das igrejas macuxis e uapixanas.
Você também pode participar orando e contribuindo. Envie sua oferta para o Banco 237 – Bradesco – Ag. 0522-3 – CC 13237-3 em nome da Missão Evangélica da Amazônia. Para que a sua oferta seja direcionada para este projeto, adicione 27 centavos ao valor do seu depósito.
Deus nos abençoe!
Edson Silva é o responsável pela organização dos dois eventos
A edição da Entre Nós de 11 de novembro trará a cobertura completa dos encontros!
Críticas, elogios e sugestões
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“De médico e louco, todo mundo tem um pouco!”
Por Curt Kirsch
Mas também não canso de ouvir: “Todo missionário é louco!”
Criei-me no interior do Rio Grande do Sul e desde pequeno gostava de aventuras. Recordo-me com certa nostalgia das brincadeiras de ‘piá’, como rodar peão, pega-pega, bolinha de gude, carrinho de lomba e até simulações de guerras entre mocinhos e índios. O que eu jamais podia imaginar é que um dia eu seria um “mocinho” de verdade entre índios de verdade, não com o propósito de matá-los, mas sim de levá-los à salvação.
Tudo começou em 1975, quando ouvi a impressionante história de cinco missionários que foram mortos pelos índios aucas no Equador. Fui impactado e tive a convicção de que Deus também me queria em alguma aldeia indígena. Jim Elliot, um desses missionários acima citados, foi o autor da frase que igualmente carrego comigo: “Não é louco o que dá o que não pode guardar, pra ganhar o que não pode perder.” E, nessa mesma loucura pela causa de Cristo resolvi também mergulhar de corpo e alma, pois compreendi que esta é a sabedoria que dá sentido à vida.
Desde 1980, ao ingressar na Missão Evangélica da Amazônia, juntei-me a muitos outros “loucos” que tinham os mesmos ideais. Mais “loucos” ainda são aqueles que dão asas e conseguem concretizar os sonhos daqueles que por Deus foram convocados a pregar o Evangelho a um grupo escondido no coração da selva. Com suas pequenas aeronaves e com seu grande empenho, coragem e destreza eles se unem a nós num só propósito: fazer Deus conhecido entre todos os povos. Estes são os pilotos de Asas de Socorro e toda a sua equipe.
Bendita loucura que toma conta da vida de pessoas que não impõem limites e não medem esforços para cumprir a ordem divina. Oxalá, muitos outros “loucos” pudessem se unir a nós para que a Verdade seja pregada a todas as tribos indígenas do nosso querido Brasil!
(*) Texto publicado anteriormente no informativo Visão do Alto, da Missão Asas de Socorro
PROVAÇÕES NOS CAMPOS AVANÇADOS
O testemunho de quase todas as famílias que viveram nos campos avançados, em aldeias no meio da selva, inclui provações relacionadas a doenças de filhos. Além dos perigos próprios da vida na mata, muitas vezes a impossibilidade de um diagnóstico e tratamento rápidos causam o agravamento das enfermidades e multiplicam os riscos. São situações de que todos os missionários estão cientes e preparados para enfrentar.
Em 1971, Davi, um dos filhos do casal Donaldo e Anita Borgman, morreu aos cinco anos, picado por uma cobra. O menino havia brincado com o animal moribundo em uma maloca e, questionado pelos pais ao apresentar os primeiros sintomas da intoxicação, não soube explicar o que houvera. Quando o avião foi chamado no dia seguinte, pois o incidente havia ocorrido bem tarde no dia anterior, já era tarde demais. O amor ao chamado levou essa família a permanecer no campo por mais de duas décadas após o incidente. E em 2007, os pais dessa criança puderam testemunhar o principal resultado de seu ministério: o Novo Testamento traduzido para a língua sanumá entregue a uma igreja nascente. [+] LEIA MAIS SOBRE AS IGREJAS SANUMÁ

Larissa Kirsch
Em 1989, Larissa tinha seis anos e morava com os pais, Curt e Marta Kirsch, no posto Parimi-ú, entre ianomâmis. Havia muitos casos de malária na localidade, inclusive Falciparum, a forma mais letal da doença. Pelo menos 60% da comunidade estava doente. Muitas crianças morreram na aldeia. Larissa e sua mãe contraíram os dois tipos da malária. Quando estava em tratamento, Larissa ficou muito mal e teve de ser removida para Boa Vista, com suspeita de malária cerebral. Na cidade pôde passar por um tratamento novo à época, e se recuperar rapidamente.

Timóteo com os pais
Em meados de 1982, a situação de malária no posto Mucajaí era muito grave. A maioria dos indígenas das três aldeias principais daquele povo estava com a doença. Várias crianças desenvolveram malária cerebral. Na ocasião, eu tinha dez meses de vida e foi quando contraí minha primeira malária. Não é incomum missionários em aldeias terem malária. Meu pai, Milton, adoeceu seis vezes em dois anos e meio. Mas como se tratava de um bebê, o sentimento de impotência e apreensão tomou conta dos meus pais. Deus permitiu que eu me recuperasse sem qualquer complicação maior.
NOTA: Hoje quase não existe mais malária na região devido ao bom trabalho de prevenção – borrifação das casas, nebulização da mata, e busca ativa mesmo quando não existem casos de malária no local. [+] Leia mais sobre a situação da malária em Parimi-ú
